Uma causa de todos
Certa vez, um conhecido disse que eu deveria escrever um texto, abaixo assinado ou algo assim, defendendo passagens aéreas gratuitas a todas as pessoas com deficiência. O tal protesto seria pela causa. Contestei, dizendo que não concordava com aquela idéia, pois a deficiência não pode ser pretexto para se adquirir vantagens.
Numa outra vez, grávida, fui convidada a posar para um calendário sensual, para mostrar que cadeirantes grávidas podem ser sensuais, seria pela causa, claro. Não aceitei, afinal, que diferença faz se uma cadeirante é ou não sensual?
Em época de eleições, todo canditado com deficiência vira meu amigo. Mensagens no orkut, na caixa de e-mail, até pelo correio, sabe Deus como me acham. Pedem meu voto, afinal, temos de nos unir pela causa!
Há pouco tempo recebi um pedido de adesão numa reivindicação para que a isenção de ICMS na compra de carro O Km não fosse limitada a veículos até 60 mil reais e o período para aquisição do veículo com tal isenção diminuísse para 2 anos, a exemplo da isenção de IPI. A adesão seria pela causa, afinal, segundo o texto, ter um veículo próprio é algo essencial para aqueles que possuem deficiência. Não aderi à reivindicação. Embora não reprove quem a tenha aderido, não acho que comprar um carro acima de 60 mil reais e trocá-lo a cada dois anos por um novo seja essencial à vida de uma pessoa com deficiência.
Pensando no que é essencial, lembrei-me de minha amiga Bete, cadeirante com nanismo, que mora no terceiro andar de um prédio sem elevador. Bete toca com dificuldade sua cadeira e sonha com uma cadeira motorizada para não depender mais de ninguém para ir ao salão onde trabalha como manicure. Daí meu pensamento foi para as muitas pessoas que sequer uma cadeira de rodas têm. Pensei também nas crianças cadeirantes sem transporte escolar e naquelas que não conseguem estudar porque as escolas não estão "preparadas" para recebê-las.
Em geral, os adultos com deficiência lutam por acessibilidade, emprego, transporte, enfim, muitas são as "causas", todas voltadas à sua inclusão.
E pelas crianças com deficiência, pela inclusão delas, quem luta? Muitos pais e educadores, com certeza. E se mais gente se preocupasse com isso? E se os adultos com deficiência também lutassem pelas crianças com deficiência, por seu direito de frequentar escolas regulares?
Somente através da convivência é que podemos aprender a respeitar as diferenças de cada pessoa e quanto mais cedo essa convivência começar, melhor.
Frequentar a escola regular fez de mim uma cidadã. Na época, ninguém falava em inclusão. Na verdade, não me sentia incluída, pois jamais fui excluída. Sempre fui parte da sociedade, nunca estive à parte. Os que conviveram comigo nesse percurso, não formaram pré conceitos a meu respeito, pois conviviam com a realidade.
Quando mais pessoas com deficiência entenderem que a verdadeira inclusão começa na infância e aderirem também esta causa, talvez, ao crescerem, estas crianças não precisem de cotas, de estatutos especiais e de nada mais que a "protejam", pois serão cidadãs, com os mesmos direitos e deveres que toda e qualquer pessoa.