Opções
Comecei bem cedo minha vida escolar. Embora, em meu tempo de criança não fosse comum, em minha casa todos foram à escola desde o jardim da infância, numa excelente escola escolhida por meus pais. Eu adorava! Fazíamos teatro (lembro ainda da turminha representando a música "A linda Rosa Juvenil", eu era um dos matinhos crescendo), participávamos da bandinha (adorava tocar triângulo e reco-reco) e, no lanche, meu preferido era pão com carne moída bem quentinha. Eu devia ter entre quatro e cinco anos.
Aos seis anos, no meio do ano, tive de fazer uma pausa, por ter ficado doente e paraplégica. Voltei aos nove, no melhor lugar para minha reabilitação e estudo, a AACD. Minha mãe, sempre preocupada com a educação, alfabetizou-me em casa. Pulei a primeira série, entrei logo na segunda. Meu dia na AACD era repleto de atividades: pela manhã, estudo; à tarde, lazer, fisioterapia, atividades extras que me faziam interagir com as outras crianças, de todas as idades e deficiências.
Depois da AACD, meus pais não tiveram muitas opções, pois tive de estudar, primeiro, numa escola que possuía rampas, longe de casa, depois, numa onde me "aceitaram". Tive muita sorte, pois na época, não existia lei alguma que garantisse às crianças com deficiência o estudo em escola regular e, ainda assim, meus pais encontraram uma diretora que se dispôs a mudar uma turma inteira de sala, somente para me receber. Minha sorte foi ainda maior, pois fiz excelentes amigos, daqueles pra vida toda, e tive professores inesquecíveis. Mais sorte ainda por, mesmo sendo a única com deficiência, jamais ter sido discriminada ou sofrido preconceito.
Se meus pais não tiveram opções, eu tenho.
Ricardinho, meu filho, vai à escola desde um ano e dez meses. Hoje, na terceira série (4°ano), já mudou de escola várias vezes. Ele não tem deficiência alguma, as escolas não lhe recusam a matrícula, assim posso escolher a que acho melhor para ele. É um menino extremamente inteligente, questionador, com fome de informação.
Recentemente, no meio do ano, Ricardo mudou para uma nova escola. Embora a anterior possuísse laboratórios de informática bem equipados, iniciação à robótica, portal eletrônico, tudo para atender as necessidades de nosso tempo, faltava o principal: recurso humano. Faltava professor com autoridade, com vontade de ir além das apostilas e da decoreba. Faltava incentivo à leitura, à escrita, à cultura e a tudo que desenvolvesse o aluno no todo. Sua escola nova não possui a imponência da antiga, nem tanta tecnologia. Professores, diretoras e funcionários conhecem os alunos e pais pelos nomes. Não há câmeras vigiando os alunos por toda escola, mas sim inspetores cuidando deles. As cartinhas de ocorrência não são a maior arma do professor, mas sua autoridade em sala e sua didática dinâmica, atenta às diferenças de cada um. É uma escola aberta à diversidade humana, que recebe alunos sem distinção, pois ter ou não deficiência é apenas parte das características individuais do aluno. Acredito ser esta a melhor opção pra ele, no momento.
Aprendi com todas essas mudanças o quanto é importante poder escolher o melhor para meus filhos e que nem sempre o melhor para uma criança, é o melhor para outra.
Muitos pais, ainda, assim como os meus, não têm o direito de escolha, pois muitas escolas ainda recusam matricula aos "diferentes", alegando não estar preparadas. Porém, as escolas também não estão preparadas para crianças como Ricardo. São escolas que preferem o aluno mediano, aquele que copia o que é imposto, sem questionamentos ou interesse por ir além da matéria dada, enfim, o que não dá trabalho e nem exige mais do que a velha fórmula de ensino possa dar. Escolas que fingem que os tempos não mudaram, que as crianças não mudaram e que, apesar de toda tecnologia e recursos que possuem, se assustam com o novo, insistindo em negar que cada ser é único e que somente através do convívio com as diferenças é que aprendemos a ser pessoas completas.