Só sei que Nada sei
Até pouquíssimo tempo, eu achava que entendia muito sobre
pessoas com deficiência, especialmente cadeirantes. Cheguei a quase discutir
com um amigo por ele ter uma visão diferente da minha. Ele, sem deficiência,
acredita que “experimentar” situações que pessoas com deficiência vivem, ajuda
na conscientização das dificuldades que os que têm deficiência passam. Nosso
embate foi porque insisti em dizer que esse tipo de coisa não causa efeito
algum.
Mas, de uns meses pra cá, ando pensando sobre o que eu
realmente sei e o quanto sei. Como eu poderia ter certeza da reação de outras
pessoas após uma experiência diferente? Concluí que eu, de fato, nesse caso, não
tenho ideia do que uma pessoa sem deficiência poderia tirar de aprendizado após
tais simulações. Pode ser que alguns se comovam, reforçando a imagem do
“deficiente coitadinho”. Talvez alguns saiam achando que quem tem deficiência é
herói! Pode haver aqueles que se identifiquem com a luta por acessibilidade e
se engaje nela ou apenas leve o assunto adiante. E pode haver também àqueles a
quem não faça diferença alguma.
Tudo bem, não daria pra saber como o “lado de lá” reagiria
diante de uma dificuldade “nossa”, mas de cadeirantes eu sabia, afinal, estamos
no mesmo barco.
Foi então que soube que meu amigo Renato, cadeirante como
eu, teve trombose e ficou um mês deitado. Imaginei como Renato ficou, não
podendo sair da cama por um mês e, imediatamente, pensei em como seria isso pra
mim que cuido de dois filhos, casa, marido, alunos. Aí, me dei conta de que,
apesar de ambos sermos cadeirantes, nossas vidas são completamente diferentes e
os acontecimentos, sejam quais forem, têm impactos diferentes nelas.
Entendi o porquê de me sentir meio peixe fora d’água quando
falam de cadeirantes como uma coisa só, um grupo homogêneo. Minha vida, minhas
experiências são únicas e ninguém além de mim, seja cadeirante ou não, entende minhas
lutas e dificuldades diárias. Também eu, não posso saber como é a vida de
outras pessoas com deficiência. Nossas deficiências nos identificam e unem,
enquanto grupo que luta por direitos, que discute problemas gerais e busca
soluções aos mesmos, mas nos diferencia por termos vivências diferentes,
especificidades diferentes, por sermos únicos, mesmo quando a deficiência parece ser igual.
Para completar, após ouvir a Anahí e outras pessoas falando
sobre gênero e deficiência, numa mesa de discussão, vi que há um mundo imenso
de questões sobre as quais nunca pensei, por não fazerem parte de minha
vivência e que a luta vai muito além da acessibilidade e inclusão.
E eu que achava que sabia muito, fiquei pequenina diante
desse mundo desconhecido e hoje só sei que nada sei.
Marcela Cálamo
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